O Fórum de CEOs e Heads de RH contou com palestra de Ricardo Basaglia sobre comportamento, relações profissionais e os desafios de liderar em tempos de incerteza e inteligência artificial.
A capacidade de reconhecer as próprias limitações, adaptar comportamentos e criar relações de confiança esteve no centro da palestra “Lugar de Potência”, apresentada por Ricardo Basaglia, CEO da Michael Page no Brasil, durante o Fórum de CEOs e Heads de RH, realizado nesta terça-feira (27/10), na Universidade Positivo, em Curitiba.
O encontro, promovido como aquecimento para o 19º CONPARH, reuniu lideranças empresariais para discutir o que torna um profissional insubstituível em um cenário de rápidas transformações. Para Basaglia, o desafio não está apenas em conhecer as ferramentas de gestão, mas em aplicar esse conhecimento na rotina. Afinal, saber dar feedback, desenvolver equipes e construir uma cultura organizacional consistente não significa, necessariamente, colocar tudo isso em prática.
Capacidade de adaptação
Ao abordar o desenvolvimento profissional, Basaglia destacou a adaptabilidade como uma competência decisiva para o sucesso. “Se, em outros momentos, o mercado valorizou o quociente de inteligência (QI) e o quociente emocional (QE), hoje a capacidade de aprender, rever posições e responder às mudanças ganha protagonismo.” Nesse processo, a arrogância pode se tornar um obstáculo silencioso. A necessidade de estar certo jamais pode ser maior do que a necessidade de buscar o que é certo.

Outro ponto central foi a responsabilidade do líder na criação de ambientes de trabalho mais produtivos. Em vez de concentrar esforços apenas na identificação de talentos, Basaglia defendeu que a liderança também precisa remover os obstáculos que impedem as pessoas de dar o seu melhor. A ideia pode ser resumida na fórmula “performance igual a talento menos interferência”.
Para ele, a falta de recursos, a insegurança, os conflitos entre colegas e a ausência de alinhamento são alguns dos fatores que comprometem o desempenho. Cabe ao líder identificar essas barreiras, facilitar a colaboração e estimular conversas difíceis, em vez de permitir que problemas se acumulem. Para isso, também é necessário combater o chamado pacto de mediocridade, quando equipes evitam apontar falhas umas das outras para preservar relações aparentemente harmoniosas.
Alinhar prioridades
Basaglia chamou a atenção para a importância de alinhar prioridades e fortalecer a cultura organizacional. Contratação, feedback, demissão e promoção são momentos decisivos para demonstrar, na prática, quais comportamentos a empresa valoriza e quais não tolera. Afirmou que “a coerência entre discurso e decisões é fundamental para consolidar relações de confiança. Líderes devem manter o olhar atento às lacunas de suas áreas, buscando oportunidades de melhoria em vez de presumir que tudo está funcionando bem”. Também ressaltou a importância de renovar as relações profissionais, deixar ressentimentos para trás e reduzir burocracias desnecessárias, criando condições para que as pessoas trabalhem de forma mais integrada.

Ao encerrar suas reflexões, Basaglia reforçou que a evolução profissional depende de escolhas intencionais e de uma postura aberta ao aprendizado. Entre os desafios estão lidar com a rejeição, manter a disciplina diante da repetição, acolher o desconforto do feedback e administrar conflitos. “Em um ambiente marcado pela inteligência artificial e pela transformação constante, a capacidade de rever atitudes, cultivar relações e agir com propósito continua sendo parte essencial do trabalho de liderar”, pontuou.
Pessoas no centro
Na abertura do Fórum de CEOs e Heads de RH, Gilmar Silva de Andrade, presidente da ABRH-PR, destacou a importância de envolver as lideranças nas discussões sobre o futuro do trabalho. Ele lembrou que, antes de reunir milhares de profissionais no 19º CONPARH, nos dias 28 e 29 de outubro, na Viasoft Experience, em Curitiba, a entidade promove esse encontro, que propõe o diálogo com quem toma as decisões nas organizações.
Afirmou que o CONPARH traz uma reflexão sobre o avanço da inteligência artificial e o valor das competências humanas. “Quanto mais poderosas as máquinas se tornam, mais valiosas são as capacidades exclusivamente humanas”, ressaltou, ao citar o discernimento ético, a coragem para decidir diante de incertezas, a empatia e a criatividade.

Ao celebrar os 60 anos da ABRH-PR, completados em 10 de agosto, Gilmar de Andrade também reforçou que a tecnologia precisa estar a serviço das pessoas. Para ele, o desafio das empresas é decidir como utilizar os ganhos de eficiência: para substituir profissionais ou para desenvolver suas capacidades. Ao longo de seis décadas, a gestão de pessoas conquistou espaço nas decisões estratégicas das organizações, acompanhando as transformações do mundo do trabalho.
“A tecnologia amplia o que fazemos, mas a liderança define o para quê fazemos. O diferencial competitivo não está apenas nas ferramentas disponíveis, mas nas pessoas que as utilizam, na maneira como trabalham e no propósito que orienta suas escolhas”, finalizou.
Fator humano
Em seu pronunciamento, o presidente do Conselho Deliberativo da ABRH Brasil, Paulo Sardinha, destacou a importância de uma visão integrada sobre o futuro do trabalho. Com experiência como executivo e diretor de Recursos Humanos em multinacionais de diferentes países, ele lembrou que, na década de 1990, as previsões sobre a automação apontavam para fábricas inteiramente operadas por robôs.
A realidade, porém, mostrou um cenário mais complexo, em que o avanço da inteligência artificial também gera ansiedade e reforça a necessidade de valorizar as pessoas. “A inteligência artificial não substitui o fator humano”, afirmou, ao defender que o RH trabalhe em conjunto com as lideranças para integrar questões como educação, saúde e desenvolvimento profissional. Sardinha também ressaltou a qualidade dos profissionais brasileiros de Recursos Humanos, cujo trabalho tem reconhecimento internacional.

Liderança humana
A vice-presidente da ABRH-PR e diretora do CONPARH, Vera Mattos, ressaltou que o sucesso de um evento e das organizações depende das pessoas e da capacidade de trabalharem juntas. Segundo ela, o Fórum de CEOs e Heads de RH foi planejado para estimular reflexões, ampliar perspectivas e promover a troca de experiências sobre temas relevantes para a gestão.
“As pessoas são insubstituíveis”, destacou, ao reconhecer o envolvimento de profissionais e voluntários na construção de experiências significativas. Vera também observou que, embora a tecnologia ofereça novas possibilidades e desafios, as decisões continuam nas mãos humanas. Para ela, “cabe às lideranças de todas as áreas construir ambientes que conciliem alta performance e segurança psicológica, compreendendo que os erros podem ter diferentes causas e devem ser oportunidades de aprendizado e desenvolvimento”.

Resultados humanos
O vice-presidente Financeiro e de Mercado da ABRH-PR, Luís Humberto Quental, enfatizou a importância de colocar as pessoas no centro das estratégias empresariais. Para ele, “os resultados econômicos são consequência do trabalho das equipes, o que torna indispensável a participação dos profissionais de Recursos Humanos e dos diretores na construção de ambientes favoráveis ao crescimento”.
Quental também destacou que a adesão ao CONPARH e à feira de negócios evidencia o interesse de empresas e participantes em compartilhar experiências e discutir caminhos para o desenvolvimento das organizações. “Os resultados vêm sempre das pessoas”, ressaltou, ao reforçar o papel estratégico da gestão de pessoas para o desempenho dos negócios.

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Transformação social
A CEO e fundadora do Instituto Incanto, Camila Casagrande, apresentou aos CEOs e Heads o trabalho da organização não governamental que, há nove anos, utiliza arte, cultura, esporte, tecnologia e educação para transformar a vida de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social em Curitiba e na Região Metropolitana. O instituto atua em três frentes: trabalho em rede com outras organizações, que já alcança 1.111 crianças; um centro cultural que atende 230 crianças no contraturno escolar, com 26 oficinas; e programas de qualificação profissional e empregabilidade em 15 favelas, que já formaram cerca de 2 mil pessoas.
Ao destacar que metade das crianças de zero a 14 anos de Curitiba vive em situação de pobreza ou extrema pobreza, Camila convidou empresas e profissionais de RH a conhecerem e apoiarem a iniciativa. “A arte, a cultura, o esporte, a tecnologia e a educação são ferramentas de transformação social”, afirmou, ao apresentar o Incanto como parceiro para ações de ESG e projetos capazes de gerar impacto positivo nas comunidades.

Painel com CEOs
O Fórum de CEOs foi finalizado com um painel que debateu como liderar na prática em cenários de incerteza, sem perder de vista o julgamento, a empatia e a coragem de tomar decisões que envolvem pessoas. Conduzido por Basaglia, contou com a participação dos CEOs Adriana Karam (Opet), Celso Tacla (Valmet), Enrico Milani (Vapza) e Marcelo Breis (Leax do Brasil).
Texto: Básica Comunicações
Fotos: Estúdio A6