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Saúde mental exige mudanças na liderança

No 19º CONPARH, Raphael Rezende alertou que ações pontuais de bem-estar não resolvem o problema sem mudanças na cultura e na estrutura das empresas

A saúde mental no ambiente de trabalho exige mais do que iniciativas pontuais de bem-estar. É preciso rever a cultura organizacional, as condições de trabalho e, principalmente, a forma como as lideranças conduzem suas equipes. Essa foi uma das principais reflexões de Raphael Rezende no Talk da dimensão Saúde Organizacional do 19º CONPARH, durante a palestra “Saúde mental, cultura e futuro: o que (ainda) esperamos da liderança?”.

Ao provocar o público sobre as expectativas em relação aos gestores, Raphael destacou a necessidade de aproximar o discurso da prática. “Quando a gente pensa na cultura da nossa empresa, quando a gente pensa no futuro da saúde mental, mas sobretudo quando a gente também olha para a realidade das nossas lideranças, o que de fato a gente espera delas?”, questionou. Para ele, a discussão precisa considerar não apenas o comportamento individual, mas também as estruturas que influenciam as relações e o desempenho das equipes.

Cultura organizacional

A rotatividade de profissionais é um dos sinais de alerta desse cenário. Segundo os dados apresentados pelo palestrante, 50% dos trabalhadores pedem demissão em menos de 12 meses. Além dos custos de reposição, a saída frequente de colaboradores compromete a continuidade dos projetos, sobrecarrega quem permanece e dificulta a consolidação de uma cultura organizacional saudável. O levantamento Panorama de Bem-Estar do RH Hub, citado por Raphael, mostra que 86% dos entrevistados consideram salário e bem-estar igualmente importantes. Além disso, 85% afirmam que deixariam a empresa se a cultura não favorecesse o bem-estar, enquanto apenas 17% sentem que essa necessidade é plenamente atendida nas organizações.

Para o especialista, enfrentar o problema requer ir além de campanhas de conscientização e benefícios isolados. Ações como Janeiro Branco e Setembro Amarelo perdem efetividade quando as práticas cotidianas continuam marcadas por excesso de trabalho, metas irrealistas e relações desgastantes. “Se a estrutura dela não está arquitetada para essa cultura de bem-estar, a gente vai se afastar cada vez mais dessa cultura”, alertou. A mudança, portanto, precisa alcançar os processos, a organização das atividades e as condições oferecidas para que os gestores exerçam uma liderança mais humana.

Práticas diárias

Outro desafio está na sobrecarga imposta às próprias lideranças, especialmente à média gestão, responsável por transformar diretrizes em práticas diárias. “Todos os problemas vão parar na liderança. E se a média liderança, mais ainda”, afirmou Raphael. Na avaliação dele, cobrar simultaneamente resultados, domínio técnico, habilidades comportamentais e desenvolvimento das equipes, sem rever a estrutura de trabalho, não resolve as dificuldades. “É necessário dar aos gestores condições reais para conduzir pessoas, organizar prioridades e construir relações de confiança”.

A autonomia também depende de clareza sobre os objetivos do negócio e das competências disponíveis em cada equipe. Com a transformação tecnológica e o avanço da inteligência artificial, Raphael defende que as empresas identifiquem os talentos para além das funções originalmente contratadas, valorizando habilidades de organização, comunicação, planejamento e liderança. “A gente precisa olhar para essa densidade de times”, afirmou, ao propor uma gestão mais flexível, capaz de aproveitar melhor as capacidades dos profissionais e criar oportunidades de desenvolvimento.

Ao final, Raphael reforçou que a saúde mental precisa ser tratada como parte da estratégia de negócios, e não como uma pauta paralela à produtividade. Isso exige escuta ativa, autocrítica e disposição para rever comportamentos e modelos de gestão. “A gente também precisa amadurecer essa pauta dentro dos times, porque a gente está perdendo o talento, a gente está perdendo o talento muito rápido”, alertou. “A sustentabilidade das empresas depende da capacidade de conciliar resultados com ambientes de trabalho que respeitem as pessoas e favoreçam seu desenvolvimento”, finalizou.

 

Texto: Básica Comunicações

Fotos: A6 Estúdios