Na Master Talk do 19º CONPARH, Lívia Mandelli destacou a importância da maturidade emocional, do respeito às individualidades e da construção de relações mais humanas para enfrentar as transformações no mundo do trabalho
O mundo mudou, as relações profissionais se transformaram e os modelos tradicionais de liderança já não respondem aos desafios atuais. Na Master Talk da dimensão Cultura e Aprendizagem, durante o 19º CONPARH, Lívia Mandelli abordou o tema “Novos tempos, tempos diferentes” e convidou os participantes a repensar a forma de liderar, engajar e desenvolver pessoas.
Na avaliação de Lívia, a pandemia acelerou uma mudança importante na relação das pessoas com o trabalho. Antes, a dedicação extrema e as longas jornadas eram frequentemente associadas ao sucesso profissional. Depois de vivenciar perdas, incertezas e o medo da morte, muitos profissionais passaram a valorizar mais o tempo, o bem-estar e a qualidade das relações. “Hoje, como eu vi a morte muito de perto, eu decidi, consciente ou inconscientemente, que eu queria viver enquanto eu trabalhasse”, afirmou.
Essa transformação também ajuda a explicar os desafios de engajamento e rotatividade enfrentados pelas empresas. Para a palestrante, não basta oferecer bons salários, benefícios ou espaços agradáveis. É preciso construir relações de confiança e ambientes nos quais as pessoas encontrem sentido no que fazem. Por isso, ela defende que as organizações deixem de concentrar esforços apenas na retenção de talentos e passem a investir na atratividade. “Reter morreu, reter é jurássico, pessoal. A gente não fala mais de retenção organizacional, o que a gente tem que falar hoje é sobre atratividade, o quanto que esta empresa é atrativa para as pessoas”, pontuou.

Pessoas, não estereótipos
Outro ponto central da apresentação foi o respeito às individualidades. Lívia lembrou que cada profissional tem motivações próprias: alguns buscam estabilidade e conforto, enquanto outros valorizam o aprendizado, a reputação ou os desafios intelectuais. Nesse contexto, aplicar um único modelo de gestão para toda a equipe pode comprometer o engajamento. “A gente precisa começar a olhar para as pessoas individualmente, olhar no olho, se conectar. A liderança deve considerar as diferenças entre as pessoas, sem reduzir comportamentos a estereótipos geracionais”.
A conexão humana também foi relacionada ao impacto das redes sociais na maneira como as pessoas se comunicam. Segundo a palestrante, a facilidade de abandonar conteúdos desagradáveis nas plataformas digitais pode reforçar a dificuldade de lidar com conflitos e frustrações na vida real. No ambiente profissional, porém, os problemas precisam ser analisados e resolvidos. Por isso, ela defende mais atenção às conversas presenciais, à escuta e à capacidade de enxergar o outro para além da aparência ou da idade.
Liderar é uma profissão
Com o avanço da inteligência artificial, Lívia também questionou a ideia de que o principal papel do líder é deter conhecimento e oferecer todas as respostas. Em um cenário no qual as informações estão cada vez mais acessíveis, o diferencial passa a ser a capacidade de formular perguntas, analisar contextos e tomar decisões com responsabilidade. “O conhecimento está disponível para todas as pessoas, não é mais sobre o conhecimento”, afirmou. Para ela, a tecnologia pode apoiar o processo decisório, mas a responsabilidade pelas escolhas continua sendo humana.

A palestrante também destacou a importância da maturidade emocional para quem ocupa posições de liderança. Reconhecer sentimentos e expressar vulnerabilidades não significa transferir frustrações para a equipe. “É a minha capacidade de falar para você o que eu sinto, mas não te usar como um cesto de lixo das minhas próprias frustrações”, explicou. A orientação é evitar conversas importantes no auge das emoções e retomar o diálogo quando houver condições de analisar os fatos com mais clareza.
Ao encerrar a reflexão, Lívia reforçou que o desafio das organizações é criar ambientes nos quais as pessoas tenham vontade de contribuir e se desenvolver. Isso exige líderes preparados para cuidar das relações, reconhecer os profissionais e estimular o aprendizado contínuo. “Hoje, a gente precisa cuidar das pessoas que fazem as coisas”, afirmou. Em tempos de mudanças constantes, a liderança deixa de ser apenas uma posição hierárquica e passa a exigir preparo, coragem e compromisso com o desenvolvimento humano.
Texto: Básica Comunicações
Fotos: A6 Estúdios